Três notas

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Setembro é mês de regressar às aulas, mas também de retomar rotinas, reorganizar horários, cortar o cabelo, destralhar a casa, trocar roupas… e renovar promessas. Uma espécie de novo ciclo, como se o cair da folha (e a renovação da natureza) nos ajudasse a retemperar as energias e o ânimo.

Cheguei a fazê-lo num caderninho comprado para o efeito, passei depois para um documento word, hoje fico-me por um registo mental de gestos e princípios que teimo em cumprir. Dos mais clássicos aos mais ousados. As refeições saudáveis e as idas ao ginásio, a arrumação das gavetas e a organização das fotografias, as leituras e a meditação, as caminhadas e as viagens, os atos solidários e as horas de voluntariado, a lista de prioridades (e de futilidades), os pensamentos a afastar e as pessoas a abraçar…

As primeiras semanas são de grande entusiasmo e algum frenesim (cheguei a escrever no caderninho um “feito” diário!) mas, confesso, com o passar dos meses, a coisa esmorece. Seja porque os planos eram demasiado ambiciosos ou porque, simplesmente, a maldita rotina reinstala-se e acaba por nos trair a vontade. Mas não há que perder a esperança, muito menos desistir. Porque, por mais simples, fugaz e simbólico que tenha sido, aquele desejo cumprido marca-nos o ego e enche-nos de orgulho e satisfação. Adoro abrir a gaveta e ver as camisolas alinhadas por cores (nem que seja uma semana!), durmo melhor depois de 15 minutos de meditação, sinto-me bem quando dou sacos de roupa, fico mais forte quando deixo as nuvens passar, sou feliz quando reinvento a felicidade. Por isso, vamos lá reabrir o caderninho...

A regulamentação da lei de gestação de substituição entrou em vigor no dia 1 de agosto e, neste momento, já são mais de meia centena os pedidos. O assunto “mexe” comigo. Como, acredito, com todas as mães. Consigo imaginar o imenso desgosto de uma mulher que não consegue ter um filho e a mágoa constante desta falta, mas custa-me aceitar que isto seja razão para ser outra a gerá-lo. Mais me custa ainda perceber como é que uma mãe é capaz de se “desligar” de um ser que, mesmo não sendo geneticamente seu, acolheu, sentiu, amou e pariu. Porque – e as mães sabem-no bem – este é um nó inquebrável e insubstituível. Desculpem-me os defensores deste “avanço civilizacional” mas, por mais nobres e compreensíveis que sejam as intenções de quem legislou ou de quem se candidata a esta “dádiva de puro amor”, esta substituição arrepia-me…

Como me arrepiam a injustiça, o desrespeito e discriminação. A pergunta à nova líder trabalhista neo-zelandesa Jacinda Ardern sobre se pretendia ter filhos é prova de tudo isso. Numa altura em que se reclamam e aplaudem avanços a nível da igualdade de sexos, ainda assistimos – num país supostamente avançado nos direitos sociais  – a “dúvidas” destas. Como se uma primeira-ministra fosse obrigada a adiar a maternidade em prol do bem público, a revelá-lo antecipadamente e a justificar a decisão. Além de que, alguém por acaso questionou o atual líder do governo neo-zelandês, pai de seis filhos, sobre o mesmo assunto?


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